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Prezados investidores,

 

Os leitores devem ter notado que já faz algum tempo desde que lhes escrevemos a última carta, mais precisamente em setembro de 2018. Acabamos por decidir não lhes escrever nos últimos meses por dois motivos. O primeiro, por estarmos em intenso processo de estruturação de novas operações as quais vamos anunciar nos próximos dias. O segundo, por não conseguirmos ser capazes de executar uma razoável avaliação sobre as perspectivas do país e novo governo. Porém, após os primeiros cem dias, período definido pela própria plataforma como o primeiro marco de entregas, acreditamos ser razoável uma análise dos resultados. 

 

A atual plataforma de governo era uma total incógnita para nós no início do ano. Afinal, o atual presidente venceu prometendo medidas, principalmente no campo econômico, nunca defendidas nos 28 anos anteriores de legislatura. Logo após o término das eleições houve forte subida da bolsa e fechamento nas curvas de juros. Ficamos um tanto cautelosos com a avaliação, pois ainda não tínhamos ideia do verdadeiro comprometimento com as reformas e a nova filosofia na condução da economia.

 

Grandes investidores sempre deixam claro a importância de separar as informações dos ruídos. Opiniões de comentaristas políticos da imprensa podem conter certo viés para um lado ou para o outro, levando a conclusões sem foram considerar todos os fatos dentro do contexto. Desnecessário dizer que análises enviesadas podem nos levar a tomar decisões erradas nos investimentos.  Dois fatos podem explicitar nosso ponto.

 

Ministro da Economia na CCJ

 

Na sessão da CCJ em que o Ministro da Economia esteve presente no último dia 3, para expor pontos da reforma da previdência, foi hostilizado nas primeiras 4 horas de debate. Só depois que doze deputados da oposição lançaram suas críticas é que o primeiro deputado a favor da reforma tomou a palavra para dar algum fôlego ao Ministro. A situação, um tanto incomum, deu a impressão de que os deputados da base ainda estão muito desconfortáveis, ou mesmo não querem, defender a reforma. O acontecimento foi amplamente explorado por parte da imprensa apontando que a própria base governista não está alinhada ao tema da reforma parecendo que o governo está completamente enfraquecido.

 

Ficou claro aos que acompanharam a sessão que a oposição teve protagonismo no debate. Parlamentares experientes fizeram afirmações pesadas contra o Ministro, apresentando argumentações sem embasamento e críticas contra reforma, pouco se afirmou sobre falhas e mudanças no texto. Obviamente, os primeiros 12 parlamentares a questionar sendo da oposição e com o fim abrupto da sessão a impressão que fica é que o governo tem pouquíssimos deputados a favor da reforma.

 

Mas a não aparição de grande parte dos parlamentares da base governista também pode ser explicada pela sua inexperiência no regimento interno da câmara. Por ser uma base formada prioritariamente por novos deputados a inscrição tardia para se pronunciarem na cessão parece ser uma das causas do sumiço. A falta de traquejo no ambiente também pode ser uma das causas da completa dominação da oposição na tentativa de atravancar os debates.

 

Qual seria o verdadeiro motivo? Difícil dizer, pode ser que a maioria da imprensa esteja correta, os parlamentares da base ainda estão desconfortáveis para defender a reforma ou sua inexperiência e falta de traquejo impactou na incapacidade de combater a oposição? Ou poderia ser ainda uma mistura dos dois fatores?

 

O importante é que não podemos tirar conclusões aceleradas. Acreditar que os parlamentares estão completamente contra a reforma poderia implicar em tomarmos a decisão de alocar nossas posições de ativos prioritariamente no exterior (dólar) e em ativos mais líquidos possíveis internamente. Ao passo que do contrário poderíamos executar alocações em ativos de baixíssima liquidez e ligados ao desempenho fortalecido da economia. Tal situação, claramente também sabemos não ser verdade.

 

Avaliação do Governo nos primeiros 100 dias

 

No último domingo, um dos maiores veículos de comunicação do país apresentou os resultados de sua própria empresa de pesquisa contendo resultados de que o atual governo tem a pior avaliação dos primeiros 100 dias de um presidente eleito como manchete principal. Desta vez, a chamada insinuou que o governo atual vem perdendo capital político apresentando resultados pífios e indo na direção de perda do apoio popular. 

 

Obviamente o resultado, quando comparado com os presidentes anteriores, nos parece bastante ruim. Assim, fica claro para o mercado em geral que o atual governo, além de não ter base, não deverá ter apoio popular por muito tempo. Logo, as reformas, principalmente a previdência, está em sério risco.

 

Mas a própria reportagem do veículo mostra que o atual governo ainda mantém 59% de apoio popular em total confiança. Os 30% que avaliam o governo como péssimo converge especificamente com a série histórica da população aliada ideologicamente com a oposição. Enfim, o resultado aparentemente indica o mesmo das eleições e a reprovação forte parece estar vindo dos grupos da população que o rejeita desde sempre.

 

Será mesmo que o atual governo vem perdendo apoio popular de maneira crescente? Ou será que a manchete pode levar a uma conclusão rápida demais?

 

Apesar do resultado absoluto ser bastante conclusivo em temos de comparação, uma análise contextual mais profunda precisa levar em consideração que a eleição da atual plataforma aconteceu em meio a uma forte polarização política. Importante lembrar que nos últimos 4 anos tivemos uma presidente deposta, ex-presidente condenado e preso, mudança radical da política econômica e o governo que nos carregou nos dois últimos anos completamente enfraquecido por escândalos de corrupção.

 

Mesmo a atual plataforma, teria saído vencedora fora de um clima de total polarização? Os dois grupos que chegaram ao segundo turno, teriam conseguido chegar até a disputa final se não fosse pelo confronto?

 

Novamente, é difícil dizer. Claramente sabemos que a atual plataforma não foi completamente assertiva no poder até o momento. Porém, nem mesmo o governo eleito em 2014, que nos primeiros 100 dias teve atuação diametralmente oposta as promessas de campanha não tiveram avaliação tão ruim. Será mesmo que se o veículo tivesse realizado a pesquisa 31/01/2019 não teria sido a atual plataforma a mais impopular nos primeiros 30 dias da história?

 

 O fato existe, mas o ruído é esse mesmo? O governo vem perdendo de sua base popular em linha rapidamente descendente? Nosso objetivo aqui é a reflexão, por isso a nossa resposta neste momento é, não sabemos.

 

Nossa avaliação

 

É inegável que a atual plataforma apresenta inexperiência, certa dificuldade de comunicação e pouco traquejo político. Porém, a promessa de campanha em relação a separação dos poderes e ações baseadas na nova política tem sido seguida à risca. Ao que parece manter essa promessa e demonstrar isso a população parece ser mais importante do que necessariamente aprovar rapidamente as tão necessárias reformas.

 

Em nossa avaliação, o governo vem cometendo erros em diversos aspectos. Falha em explicar o que é a "nova política", tem dificuldade na comunicação, parece acreditar que não precisa de articulação política e deixou correntes ideológicas se apropriarem de parte das pastas ministeriais.

 

Entretanto, a plataforma também tem suas qualidades. O corpo técnico a frente da economia é um dos melhores que já existiu. O presidente apresentou certa capacidade de corrigir determinados erros rapidamente e parece estar procurando ser mais pragmático do que ideológico, pelo menos no que tange a economia.

 

Se nos deixarmos levar por uma ou outra avaliação em uma análise profunda dos fatos e não das opiniões, podemos incorrer em decisões perigosas de investimentos. Percebemos que em geral, a espera de resultados extremos o tempo todo a partir de fatos razoavelmente cotidianos na sociedade é um sério erro do investidor que aumenta a ansiedade e pode lhe tirar o sono.

 

Fazendo uso de técnicas eficientes de alocação, profundas análises dos fatos e não das opiniões, nos protegendo de eventos extremos e nos expondo corretamente aos riscos permanecemos confortáveis com nossas alocações de ativos. Porém, também temos a consciência de que nosso treinamento e controle emocional será colocado a teste nos próximos meses e anos.

 

Sobre a Previdência

 

A despeito de haver grupos influentes contrários à reforma, ainda acreditamos em boas possibilidades na sua aprovação neste ano. Nosso entendimento é que o tema, por ter sido postergado por tanto tempo, se tornou um assunto suprapartidário.

 

Além da necessidade da União de conter os gastos com previdência, estabilizar a dívida e reverter o déficit fiscal. Os estados e municípios também se encontram com enormes problemas fiscais, piores até do que a União. O apoio dos estados e municípios a reforma é uma imposição até para aqueles prefeitos e governadores pertencentes a oposição. Sem a reforma, o Brasil terá enormes dificuldades em destravar valor na economia e receber investimentos tão necessários em infraestrutura, saúde e educação e manterá o atual sentimento de freios travados na sociedade.

 

Apesar de acreditarmos na aprovação, mesmo que tortuosa, provavelmente a reforma não será na intensidade pretendida pelo Ministério, com R$ 1 trilhão de economia em dez anos. Esperamos uma reforma entre R$ 400 e R$ 600 bilhões. Ainda sim, uma reforma dessa magnitude é capaz de destravar valor na economia brasileira nos próximos anos. Porém, a sociedade brasileira revisitará o assunto no fim da próxima década.

 

Após isso, mais desafios

 

A reforma da previdência é apenas a primeira de uma série de reformas macroeconômicas impositivas ao estado brasileiro. Esta tem sim bom poder de destravamento de valor na economia no curto prazo. Mas para alçar o Brasil ao desenvolvimento nas próximas décadas será necessário reformar o estado, a legislação tributária, fortalecer a abertura da economia e facilitar a regulação de diversos setores importantes no país. 

 

Grande abraço!

 

 

 

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